
DIa 31 de Janeiro de 2009
hora 16:00h
local Cais de Gaia - barco “Milenium”
Locais de Venda Principais quiosques por todo o país, Instalações do Espaço t (Rua do Vilar, 54 | 54A, Porto), no site em www.espacot.pt
Editor Espaço t – Associação Para Apoio à Integração Social e Comunitária
O Espaço t – Associação para o Apoio à Integração Social e Comunitária lança o número 15 da revista Espaço Con(tacto), intitulada“O Desejo” O Espaço t – Associação Para Apoio à Integração Social e Comunitária apresenta, no dia 31 de Janeiro, a décima quinta edição da revista “Espaço Con(Tacto)”, intitulada “O Desejo”.
O lançamento terá lugar no barco “Milenium, no dia 31 de Janeiro, pelas 16:00 no Cais de Gaia.
Este número, na linha das edições anteriores, será editado em Negro, Braille e áudio. Por outro lado, este número da revista estará disponível em formato áudio no site do Espaço t.
A nota de abertura é feita pelo Embaixador Fernando Andresen Guimarães Presidente da Comissão Nacional da UNESCO.
Uma entrevista à viajante Ana Isabel Mineiro; uma reportagem sobre o desejo e a arte com os testemunhos do pintor Augusto Canedo; uma produção de fotografia e moda com modelos pouco convencionais vestidos com criações de Katty Xiomara; um conto do escritor Valter Hugo Mãe ilustrado com fotografias da artista plástica Cristina Ataíde; nas conversas contacto contamos com duas entrevistas a um sem-abrigo e a um psicólogo; são algumas propostas dos trabalhos que a revista oferece ao longo de 42 páginas de textos em Negro e em Braille, ilustrações e fotografias. Um cd áudio com a narração dos textos completa a edição.
Faz parte ainda deste número, uma entrevista com um sem-abrigo, que assim fala na primeira pessoa, sobre os seus desejos em particular e o desejo em geral. Tal como escreve Jorge Oliveira, Presidente do Espaço t, no editorial desta revista, pretende-se com este numero da revista Espaço Con(tacto) dedicada ao desejo questionar este sentimento, reflectir sobre ele e dar voz a diferentes pessoas com diferentes desejos. “Desejo afinal que sentimento é este, que percorre todos os lados da vida humana? Quase podemos afirmar que desejo é o verbo da felicidade, pois parece que tudo o que nos pode dar felicidade tem de ser desejado. Será que é assim?...Podemos agrupar o conceito do desejo em tantos grupos e subgrupos que quase se torna uma tarefa impossível.
Há os desejos pequenos, os grandes, os utópicos, os inconfessáveis, os bons, os maus, os amorosos, os físicos, os estéticos, os de paladar, os financeiros, os religiosos, os do saber, os do pecado, os da ambivalência, os da eternidade e tantos outros e até mesmo os desejos do não desejo. Mas afinal, que sensação tornada vontade é esta a que chamamos desejo e que força ou importância tem ela nas nossas vidas?
Será possível viver sem desejo, a existência do desejo leva à ruptura interna ou externa? Aonde está este equilíbrio, se é que há equilíbrio?”
Profissionais de jornalismo, fotografia, artes visuais, e outras áreas de intervenção, juntaram-se mais uma vez com alunos e formadores do Espaço t na concretização de uma revista que pretende, no seu processo de concepção, incentivar o relacionamento entre todos aqueles cujos percursos de vida estão distanciados e que assim podem partilhar um objectivo comum, utilizando a arte como linguagem unificadora. Trata-se por isso de um objecto de design universal. Disponibiliza-se informação actualizada, diversificada e que sensibilize, apostando numa abordagem editorial, inovadora e criativa, que atenda sobretudo a um universo cada vez mais diversificado de pessoas.
Segundo Jorge Oliveira, “para nós esta revista atingiu um nível de maior qualidade, uma vez que com um novo parceiro – Lidergraf – que através de um patrocínio, nos disponibilizou um papel certificado ao nível da gestão florestal sustentável, permitindo editar a 1º revista a nível nacional comercializada com a certificação FSC e PEFC”.
No dia 31 de Janeiro, todos os presentes serão convidados a simbolicamente a lutar pela realização dos seus desejos, através da inscrição dos seus desejos numa fita que acompanha o convite.
No lançamento será servido um cocktail, haverá animação a cargo do DJ’ Fi! ao mesmo tempo que se fará o percurso “Porto, Património Mundial” no barco “Milenium”.
Colabore com o Espaço t, divulgando a revista Espaço Con(Tacto)
DIa 17 de Janeiro de 2009
hora 15h00
local De realizaÇÃo Quase Galeria,Rua do Vilar, 54 / 54A, 4050 – 625 Porto
Tudo é uma questão de retrato. Questione-se o que seja um retrato, isso é certo. Há que questionar-se, tanto quanto nem o próprio se saiba retrato, retratado, susceptível de ser retrato. Em todos os 4 vídeos temos questão de retrato, retratados, então auto-retratos, de certo modo, entendendo-os assim. Pois, no caso dos artistas, escritores e demais autores, pode ser questão de auto-retrato directo ou diferido, intermedial (ou intermediado). Os retratos podem apresentar pessoas denominadas e conhecidas ou podem ser anónimos. No caso dos anónimos pode ser caso de reconhecimento ou caso de total e absoluta ausência de identidade. Pois, nunca se causa nem cansa a identidade. Talvez. Os anónimos, não reconhecidos ou reclamados por ninguém ganharam um nome: John Doe (masculino) & Jane Doe (feminino). O anonimato, a não identificação tem sexo, género ou raça. Não, nem quero lembrar os corpos na série Morgue de Andres Serrano. Pois, em X7DW_7 [X=anónimo; 7DW=Seven Days Week], o protagonista – que não sabe ser protagonista – está vivo, acho, melhor, quero acreditar que sim; vivo da forma melhor que haja para se saber (existir) vivo. Pensei, o que sentiria X7DW_7 (vamos atribuir-lhe o título do vídeo) se, por um acaso da sorte (azar da fortuna…), olhasse o vídeo nesta mostra. Reconhecer-se-ia a si? Querer-se-ia a si? Onde estar consigo mesmo, onde ser, pensaria. Não sei. As pessoas têm ritmos, ganham distanciamento quanto a decisões que um dia assumiram e depois repetiram. Aí, os comportamentos de si mesmo debruçam-se para fora, nos atributos que são rituais, paranóias saudáveis ou terríveis. X7DW_7 sugere conceitos equívocos que se inscrevem em efabulações estéticas e poéticas, tais como as antinomias (?) de flânerie, de Wanderer ou revêries figurais transpostas.
A obra videográfica X7DW_7 é composta por 7 unidades, cada uma delas correspondendo à duração diária de 1 hora de gravação realizada por António Rego ao longo de uma semana. A cada dia da semana corresponde um visionamento que se encontra aferido a quem visite a mostra, replicando assim a passagem e a extensão dos dias vividos pelo indivíduo que foi filmado – de forma incógnita e supondo uma certa dose de voyeurismo…O quotidiano, a rotina instituída por motivos que se desconhecem para o protagonista X7DW são-nos devolvidos na sua genuidade, seus enigmas e dramas.
Glasgow People – os retratos fixos quando estagnam do movimento natural, carecem contemplações tanto quanto nos contemplam. Questiono, recordando Guido Ceronetti, se os rostos fazem parte do corpo…pois de quando em vez também eu me sinto inclinada a duvidar…Surgem desde algures; nos rostos vejam-se os olhos e, com mais pregnância ainda, pergunto-me, os olhos residem nos rostos, estão ou existem, para além de, onde? Olham-nos desde de lá detrás do ecrã ou do monitor, atravessando parede e recordando-me Jean Cocteau e sua teoria de Zone (reveja-se o seu filme Orpheus). Zone é esse território onde tudo parece ser e não é; esse terreno da memória, tão desejada ou temida, que se repete, subsumada a propriedade do tempo mítico como assinalou Octávio Paz. Então, os retratados que olham os seus espectadores são seres sem tempo, que ultrapassam o tempo e o armadilham, iludindo-nos por os acreditarmos ali – Da Bleiben, Da Sein…parafraseando Heidegger. Olhares interpelativos, designativos ou vislumbrando intimidação, os retratados são “common people”…parcelas identitárias integrando fotografias dribladas em vídeo (reversíveis ou não) que é um documento, um testemunho societário quanto estético. A não assunção denominativa que visibiliza de cada um dos sujeitos presentes neste vídeo poderá supor, numa leitura iconológica quanto antropológica, a perda ou retracção das respectivas identidades. Todavia, a sustentação dos sujeitos/figuras/retratados direccionam-nos para uma outra apropriação, outorgando-lhes a nota identitária que no rosto possui a totalidade de ser singular e individual. Através da impositividade, interpelação das imagens cativadas em Glasgow People, a viagem intersubjectiva ganha novos territórios. O olhar, o olho que vê, a percepção nutrida por uma metodologia e estoicismo que se revê nos outros.
A estratégia do reflexo na arte ocidental fixa uma tradição que, procedendo da pintura, expandiu o seu virtuosismo para a fotografia e os registos de movimento, quer no cinema quer no vídeo. Em Love Story, António Rego apresenta-nos inúmeros casos de pessoas que residem com um suposto alter-ego ou ipso-ego. Nomeadamente, apresenta-se a si mesmo, confirmando que, por vezes, o auto.retrato é aquele que melhor comporta a obra do artista em si – e para os outros. A alteridade do eu exerce-se em tempos desincronizados e em tomadas de vista deslocadas, no relativo ao díptico instituído. A cada pessoa apresentada (e não representada) corresponde uma existência musical específica que lhes assegura a identidade, procriando posturas, determinismos gestuais que são sustentados flagrantemente em acto de fumar. Se considerar sejam presentificações de identidades, o que se pretende? Enfatizar a plasticidade ontológica individual, coreografando a equivocidade diferenciada de instantes e duração, concluindo tão à maneira de Peter Handke?...Perguntei-me se todos seriam fumadores convictos ou ocasionais. Se esse acto seria uma genuinidade ou um simulacro. De todas formas, os retratados - fumantes ou não fumantes – dão réplica à intencionalidade do autor em os tornar presentes, em os presentificar para além de os apresentar. Usando artifícios que estimulem a constituição de identidades que são designativas, denominativas, contrariamente ao caso de Glasgow People. Para o receptor (não meramente espectador) a actuação, o desempenho de cada uma das pessoas exige uma duração estética quanto antropológica. Entenda-se cada uma das pessoas, captadas enquanto emissor portador de uma mensagem, dirigindo-se a outrem – talvez, tanto quanto para o próprio se auto-comunica/ se auto-reflecte, dada a densidade introspectiva que se percepciona. Este movimento, virado para dentro, conduz para uma certa antropofagia que se revela visceral em Ahooooo! As intermitências entre evocações inclinadas, instituindo eixos diagonais que definem um espaço predominantemente bipolarizado em termos cromáticos é usado – através de uma suposta neutralidade – para exacerbar a crueza pujante da cor. A simbologia e a densidade de um pigmento visceral, evocam a “bi-conceptualização” deleuziana acerca do caso de Francis Bacon. Nesta obra videográfica de António Rego, mescla-se um efeito caleidoscópico, algo literal com conteúdos de teor antropológico, que remete para conceptualizações escatológicas gerando camadas sucessivas também em termos semântico. A acutilância com que o humano irrompe na carne (chair et viande) do animal, transfigura este em condição quase antropomorfizada que solicita horrores de violência e guerra. É uma iconologia apocalíptica que atinge o vómito, recuperando-se a alma do espectador através da austeridade arquitectural dos edifícios reconduzidos por caminhos inclinados de um autor mergulhado sobre suas próprias entranhas. O ritmo da filmagem, compósita e irreversível, propicia alucinações que são parte integrante de todo e qualquer ritual em tempos prévios a um conhecimento filosófico. Pois o tempo cronológico ancestral, de primordial absorção cenográfica (e dramatúrgica) das imagens retrocede para a sua efectividade mítica, nem sequer mitológica. Culto, ritual e sagrado quanto profano (e profanação), exaltam ao sacrifício, organizando uma volúpia iconoclasta se não fosse de uma tão radical concupiscência estética.
Mª de Fátima Lambert
Janeiro 2009
X7WD – Sete Dias da Semana (tradução da autora)